“EaD é o futuro do ensino”, ressalta Prof. Mauro Pequeno, diretor da UFC Virtual, em entrevista ao Tribuna do Ceará

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A matéria especial do portal de notícias Tribuna do Ceará publicou um riquíssimo conteúdo sobre a Educação a Distância no Ceará. Informações sobre dados quantitativos, sociais e históricos dessa modalidade que, como ressalta o professor Mauro Pequeno, diretor do Instituto UFC Virtual, “EaD é o futuro do ensino”.

Acesse aqui, a Matéria Especial na íntegra: A vitória do Ensino sobre a distância – Instituições do ensino superior público no Ceará abrem caminhos na educação através da tecnologia e de um novo olhar sobre a aprendizagem 

 

Entrevista com o Prof. Mauro Pequeno:

 

“EaD é o futuro do ensino”,
antecipa especialista em tecnologia na educação

 

“O ensino presencial como está vai se acabar”. Com essa frase o diretor do Instituto UFC Virtual, Mauro Pequeno, iniciou o diálogo com o Tribuna do Ceará sobre a educação à distância. Sua trajetória se confunde com o desenvolvimento da tecnologia na educação, não só em âmbito regional, mas nacional.

Um dos diretores da Associação Brasileira de Educação à Distância (Abed), coordenador do Programa Universidade Aberta do Brasil (UAB) na UFC e detentor de uma série de atribuições relacionadas à tecnologia, Mauro Pequeno é um dos poucos brasileiros reconhecidos como “construtor da internet no Brasil”, ou seja, um dos responsáveis pela materialização da rede mundial de computadores no País no início dos anos 1990.

Ele se emociona ao falar sobre como a educação à distância tem transformado a vida das pessoas. Pequeno não é apenas um aficionado por tecnologia, ele consegue ver o futuro através dela e luta para transformar ideias em realidades.

 

Mauro Pequeno se emociona com a transformação de vidas graças ao EaD

 

Tribuna do Ceará: Como e quando começou o ensino à distância no Ceará?

Mauro Pequeno: Desde 1995 trabalho com EaD. Trabalhávamos com as escolas e desenvolvemos um projeto que envolvia quatro estados. As escolas tinham que fazer um trabalho em conjunto. A internet, naquele tempo, era muito precária. No que nós fazíamos – inclusive chamávamos esse projeto pitoresco de “internet via ônibus” – os nossos bolsistas iam às escolas, gravavam nos computadores locais os projetos dos alunos, botavam num disquete, pegavam o ônibus, vinham pra universidade e, daqui, transmitiam para o Rio Grande do Sul. O pessoal do Rio Grande do Sul mandava as coisas aqui, pra universidade, os bolsistas gravavam num disquete e levavam de volta para a escola. Foi um exemplo, um sucesso absoluto. O Ceará se desenvolveu muito, sempre foi cabeça nos projetos. Quando entrou o projeto do MEC (Ministério da Educação) à distância, em 2001, usávamos material impresso como base, tínhamos aula uma vez por semana via TV e ainda tinha o apoio da internet na universidade. Foram cursos à distância para formação de professores que começaram em 1996 e foram passando, ao longo dos anos, até chegar à UAB (Universidade Aberta do Brasil), em 2006.

 

“Nosso trabalho com curso à distância é bem antigo, somos pioneiros”.

 

Tribuna do Ceará: Como foi o processo de aplicação do ensino à distância à educação superior?

Mauro Pequeno: Fui um dos criadores da UAB, eu era um dos diretores da UniRede (Associação Universidade em Rede 1). A intenção da UAB era trazer a educação à distância para o ensino superior das públicas porque só existia no ensino superior das privadas, as públicas não participavam. Houve muita resistência no início, achavam que isso era ensino de segunda, iria diminuir o nível das públicas, que sempre foram as melhores do país, ia contaminar a qualidade, havia sempre esses preconceitos: “Ensino à distância é ensino de segunda”. Isso foi muito forte, foi difícil, tivemos de fazer um trabalho de formiguinha, fomos captando devagarinho as pessoas, trazendo quem tinha mais boa vontade, ia mostrando que a coisa não era bem assim. Hoje em dia, praticamente derrubamos esse preconceito.

Tribuna do Ceará: Mais de uma década depois, ainda existe preconceito com o EaD?

Mauro Pequeno: Ainda existe, mas é muito mais suave. Aqui, na UFC, tivemos de fazer um trabalho interno muito forte, inclusive de legislação. Tiramos, no regimento da universidade e no estatuto, qualquer menção que diferenciasse o ensino à distância. Igualamos tudo. Um professor que tem carga horária de 12 horas por semana pode dar oito horas presencial e quatro à distância por semana. Foi um trabalho muito duro para conseguir fazer isso, mas foi uma das coisas que fizemos para vencer o preconceito. Foi uma barreira que derrubamos, e professores que não conheciam começaram a se aproximar.

Tribuna do Ceará: Qual o cenário do ensino à distância no Brasil?

Mauro Pequeno: O ensino presencial como está vai se acabar. Não vai ter mais. O próprio mecanismo da sociedade exige isso. Um aluno leva uma hora pra vir e outra pra voltar (até a faculdade). São duas horas perdidas durante um dia. Isso não faz sentido hoje. O que está acontecendo? O tempo está ficando cada vez mais precioso para se jogar fora, o tempo precisa ser otimizado. Estamos substituindo os nosso deslocamentos pelo deslocamento de bits, estamos colocando os bits para caminhar e estamos produzindo muito mais. Não são só duas horas de trânsito, é o estresse acumulado que faz cair o rendimento. No ambiente da sua casa ou em outro lugar, você vai estar muito mais relaxado.

 

“O ensino presencial como está vai se acabar”.

 

Tribuna do Ceará: Por que ainda existe certa resistência ao EaD?

Mauro Pequeno: Nós não fizemos essa mudança ainda pelo conservadorismo das pessoas. O professor está acostumado a ter o quadro, a ir lá pra frente. Os alunos é que não aguentam mais, os alunos não rendem mais. O rendimento em uma sala de aula está comprometido. O número de evasão está aumentando em vários níveis de ensino. O aluno aguenta passar uma hora no celular, mas não aguenta passar uma hora ouvindo o professor falar, porque ele está condicionado a outro tipo de atividade. Ele quer ser ativo, não quer ser passivo. Aqui (no EaD), ele está sendo ativo todo o tempo, enquanto na sala de aula, ele está sendo passivo o tempo todo. O mundo não comporta mais isso. O aluno é criativo desde sempre. Hoje, uma criança com três anos de idade já está com o celular, interagindo com um aplicativo, com um game. Essa geração já nasce assim. Não adianta a gente impor algo antigo, de outra geração, porque vai ter choque.

Tribuna do Ceará: Ainda não estamos preparados para uma mudança total. Qual formato de ensino seria o mais adequado atualmente, então?

Mauro Pequeno: Estamos caminhando para um ensino híbrido. É um ensino que tem um momento à distância e outro presencial. Tem disciplina que é totalmente à distância. Eu posso ter uma disciplina de filosofia totalmente à distância. Agora uma disciplina de física ou de química não pode ser totalmente à distância, porque exige um laboratório. Há disciplinas com mais momentos presenciais que à distância, e outras com mais momentos à distância. Totalmente presencial não haverá nenhuma, porque toda disciplina tem teoria que pode ser dada à distância. Esse é o caminho, é inevitável. Quanto mais rápido nós formos, melhor. O problema é que a resistência e o conservadorismo estão atrasando. Poderíamos estar com avanço maior. A UFC tem know-how. A UFC tem núcleo de estudos, ferramentas. Estamos implementando aqui metodologias novas, como sala de aula invertida. Em vez de o professor estar jogando uma série de coisas, o professor diz para o aluno: você deve estudar esse, e esse tópico. Você nunca esgota, você não dá receita de bolo para o aluno. Ele tem que ser ativo, ele vai buscar o conhecimento. Ele estuda a teoria e traz para o grupo a dúvida. Essa discussão pode ser online ou presencial.

 

Para Mauro Pequeno, o EaD tranformará o ensino presencial. “É um caminho sem volta” (FOTO: Iago Monteiro/Tribuna do Ceará)

 

Tribuna do Ceará: Alguns conceitos relacionados à educação à distância se relacionam com estudos tradicionais do processo de aprendizagem, como o de educar pela pesquisa, defendido por teóricos como Paulo Freire e Pedro Demo.

Mauro Pequeno: Exatamente. Sala de aula invertida, por exemplo, não é novidade. Ela foi falada pela primeira vez na década de 1960. Mas ela só tomou corpo agora por causa das tecnologias. Agora facilitou e é a grande moda em termos de tecnologia do ensino. Com sociedade preparada, aluno preparado, escola preparada, ela ganhou força.

Tribuna do Ceará: Alguns professores pontuam que, no ensino à distância, é mais demorado ter um feedback do aluno sobre o rendimento da aula.

Mauro Pequeno: É muito mais fácil, porque você tem o polo para contato com o professor, tem a discussão pelo fórum, ferramentas que são assíncronas. O próprio ambiente registra a participação dos alunos, você pode ter esse acompanhamento direto com o aluno porque você tem um registro, enquanto na sala de aula, você não tem. De todo mundo ali, como que você sabe, olhando para a cara do aluno, como sabe ler se ele está com dúvida, se não está? Só se ele for muito expressivo. Geralmente, não é. Principalmente em salas maiores você não vai conseguir ter esse feedback. A vídeo aula é um momento em que todos estão participando. Nos contatos diretos, ele pode dar uma assistência mais individual. Aí está a diferença da educação à distância, a grande vantagem. A gente sempre diz que o aluno tem aprendizagem individual, não são aprendizagens coletivas. Cada um aprende de uma maneira, mas, no ensino presencial, isso é muito difícil de ser detectado, e no ensino à distância é bem mais fácil detectar isso.

“A gente sempre diz que o aluno tem aprendizagem individual, não são aprendizagens coletivas. Cada um aprende de uma maneira, mas, no ensino presencial, isso é muito difícil de ser detectado”.

 

Tribuna do Ceará: Um dos motivos apontados como razão para evasão costuma ser a dificuldade em operar as tecnologias digitais. Como é tratado esse problema?

Mauro Pequeno: Aí é que está o papel do polo. O aluno que tem a dúvida deve se dirigir até o polo. Lá, o tutor presencial auxilia. No começo, as pessoas vão ajudá-lo até ele ter o discernimento. Se você está com dúvida, pode perguntar, “como eu faço o acesso?”; “como mando o meu trabalho com anexo?”. Até mesmo o tutor à distância consegue orientá-lo.

Tribuna do Ceará: O Cinturão Digital foi importante para a expansão do EaD no Ceará, mas ainda há muita carência de internet. Esse é um dos maiores desafios para expansão da modalidade?

Mauro Pequeno: Em primeiro lugar, realmente o acesso à internet precisa melhorar, porque ainda tem muita deficiência, mas uma coisa que percebemos aqui é que também os alunos não têm computadores. Porém, todo mundo tem um smartphone, então criamos a versão Solar (ferramenta de acesso aos cursos da UFC) para smartphone. Se ele não tem o computador, ele acessa o conteúdo pelo celular. Estamos trabalhando também com acessibilidade. Já temos ferramentas para várias deficiências. O Cinturão Digital ajuda muito, muitos polos são cobertos. Há ainda muita carência na relação das prefeituras. O polo é manutenção da prefeitura, sempre alegam falta de recursos. Temos que continuar lutando para melhorar isso.

Tribuna do Ceará: Recentemente, houve uma discussão nacional sobre aplicar o EaD ao Ensino Médio. Qual sua opinião sobre ela?

Mauro Pequeno: Foi uma confusão. Achei aquilo horrível, porque eu acho que você começar a introduzir o EaD no Ensino Médio é totalmente válido. Mas quando é uma “canetada” assim, causa reações (negativas). Eles poderiam ter ido mais sutilmente, começando a colocar algumas disciplinas. Mas foi dada uma “canetada” só e espantou todo mundo. A maneira foi errada.

Tribuna do Ceará: Há um crescimento no número de alunos do EaD que entram logo após o Ensino Médio, mas é uma mudança brusca de modelo de ensino. Como amenizar esse impacto?

Mauro Pequeno: Nós sentimos esse problema, por isso começamos dando a disciplina de introdução à EaD, todo curso nosso começa com introdução à EaD. É uma disciplina preparando o aluno para estudar à distância. A gente diz como é que ele deve estudar, a gente explica o ambiente virtual, como ele deve entrar, como ele deve participar, como ele tem que ter disciplina para seguir o curso… Ele vem totalmente despreparado, vem com outro formato. Vem cobrando coisa do professor que não tem sentido, porque ele tem outra concepção de ensino. Por isso sou a favor de introduzir (o EaD) ainda no Ensino Médio, mas tem que ser um programa inserido de médio a longo prazo, não numa “canetada”.

 

“Sou a favor de introduzir (o EaD) ainda no Ensino Médio, mas tem que ser um programa inserido de médio a longo prazo, não numa ‘canetada’”.

 

Tribuna do Ceará: A universidade se constitui a partir do tripé Pesquisa-Ensino-Extensão. Hoje o EaD desenvolve bem o ensino, mas como atingir o mesmo patamar na pesquisa e na extensão?

Mauro Pequeno: A dificuldade é porque os alunos estão distante para desenvolver um programa ou participarem de bolsas. As bolsas não chegam até eles em números suficientes, são sempre dadas a projetos que professores desenvolvem e o aluno está ali próximo. Essa é uma barreira que precisamos vencer. Já temos alunos participando, mas precisamos de mais bolsas.

Tribuna do Ceará: Como as instituições de pesquisa estão se atualizando?

Mauro Pequeno: Houve agora um novo edital do Pibic (Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica) que a Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) lançou que já vai dar um alívio, vem bolsas para alunos à distância. Muito lentamente, mas a Capes está se atualizando, tanto que criou os mestrados profissionalizantes à distância, temos vários. Antes não havia nada, eram totalmente contra. Acho que aqui, no Brasil, ainda está muito lento. A Capes ainda é muito conservadora, diferente dos outros países. Todo mundo já faz ensino à distância há quantos anos?

Tribuna do Ceará: Nessas três décadas, o que mudou de mais substancial no Ensino à Distância?

Mauro Pequeno: Primeiramente, as tecnologias, que avançaram muito; e o perfil dos alunos, a nova geração de alunos que está chegando, que são alunos conectados. Isso facilita o ramo da EaD. As dificuldades que você narra tendem a se acabar, é a mudança de geração. Estamos num período de transição, mas já avançamos mais da metade do caminho.

 

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